Villa de um Lord inglês em Cannes, fim-de-semana de coisas do inferno. Não me lembro de muito, apenas de cenas filmadas a preto-e-branco por Bruce Weber, cães a correrem por todo o lado, crianças belas e pouco vestidas, um Bentley Continental dos anos 50 e um quarteto de cordas a tocar na varanda em frente ao mar cristalino. Ah, o mar! Mergulho e quase me afogo enquanto na praia um bailarino caribenho de Pina Bausch faz poses de Vogue ao lado de Lady Violet McAvoy, de fato de banho vintage branco e copo de champagne na mão. Ela parece flutuar no sol de Agosto e ele parece uma criatura descarnada vinda de algures no cosmos. Deitados na plataforma de madeira presa ao largo da praia, a fumar, eu e os meus companheiros de ocasião parecemos um anúncio da Abercrombie & Fitch. Muita bebida, muita droga, duas modelos eslovenas que parecem ter doze anos, cobertas por absolutamente nada. Uma delas canta algo como um lalalalalalalalalala infindável, numa voz que mal se ouve. São anjos, evidentemente, diz Paolo. Francesca ri com gosto e olha para lado nenhum. São tão bonitas. Suspiro. Na praia, um mordomo vestido de negro serve sanduíches de salmão e pepino e mais champagne. A plataforma ondula suavemente ao sabor das poucas ondas que o Mediterrâneo consegue produzir. Mas são tão bonitas, diz Francesca, corpo voluptuoso banhado pelo sol. Pergunto-lhe se quer casar comigo. Naturalmente, responde ela, sem um pingo de ironia. Volto a mergulhar no mar que é tão bonito e nado até à praia. Os calções de banho Ferré que uso são maravilhosos e eu detesto-os. Ao subir a escada até à Villa no topo da colina, olho a água, dispo os calções e atiro-os ao abismo. Faço a minha entrada triunfal no Salão Napoleão, quero uma reacção de alguém ou de alguma coisa, mas o quarteto de cordas tem os olhos vendados. Visto-me de branco, o mordomo de pedra abre-me a porta e salto para dentro do Bentley Continental. Mais tarde, ao conduzir o mastodonte descapotável pela estrada à beira-mar, fumando um Dunhill, os óculos Prada a separarem-me do mundo, só me consigo lembrar daquela canção dos Pet Shop Boys, This Must Be The Place I Waited Years To Leave. Ah, o mar!
quinta-feira, 8 de maio de 2008
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Revelée
Numa noite qualquer em Nova Iorque, a ouvir o Carl Craig, num Clube cujo nome não me lembro. Gosto muito do Carl Craig. De joelhos à minha frente, no escuro, uma boca qualquer faz o que tem a fazer. Tenho um copo de vodka na mão e os olhos semi-cerrados, a cabeça ao som do ritmo. Sinto que a minha vida é apenas um mau filme de um italiano dos anos 60, cheio de brilho e luxo e surpresas, mas sem significar absolutamente nada. Não sou capaz de amar nada nem ninguém por mais de trinta segundos. Estou rodeado de pessoas belas, jovens e disponíveis, na mesma situação que eu e isso não me alegra. Gosto do Carl Craig. Por enquanto. Quando sair daqui, vou copiar a cena da Sharon Stone e do futebolista inglês na abertura do Basic Instinct 2. Tenho o Spyker lá em baixo e a boca que está de joelhos à minha frente nem vai saber o que lhe acontece. A miúda até é gira, tem todas as qualidades que eu aprecio. Mas não quero saber dela para nada. Quero que ela se foda. Gosto do Spyker. Por enquanto. Há barulho, luzes, reflexos, espelhos, corpos, calor, movimentos sincopados, como se um conjunto de espectros bem vestidos tentasse divertir-se a todo o custo. Quero gritar e não me sai qualquer som da garganta. O costume. Acelero o Spyker pelas ruas de Nova Iorque, como numa cena realizada por Michael Mann. Não, nada disso, preciso de algo mais superficial. Esta cena está a ser realizada por Tony Scott. Sim, filtros, câmara ao ombro, brilhos e reflexos... Música de Carl Craig. Anti-climax. A miúda gira grita que se farta e estraga o ambiente. Páro o carro, numa nuvem de borracha e atiro-a dali para fora. O vestido John Galliano dela rasga-se e fica preso à porta, flutuando ao lado do carro enquanto acelero para fora dali. Apetece-me matar alguém. Limito-me a conduzir sem destino até se acabar a gasolina. Tenho 30 anos, sou rico, giro e a minha vida é um simulacro da vida de um ser humano real. Gosto da Sharon Stone, mas agora não me posso preocupar com isso. Over and out.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Movano
Entre o troar dos motores dos Ferraris vermelhos, ouço o Malcolm McLaren a dizer baboseiras sobre Paris. Há fumo e borracha no ar e estou até algo excitado. Ora aí está uma surpresa. Estou vestido de negro, cheio de sentimentos negros, mas a cheirar divinamente. Por trás dos óculos escuros Gucci, ao lado do príncipe Karl Von Orbach, sinto-me capaz de tudo. É o som infernal dos motores, o vento que sopra entre as árvores, a música que parece nascer do próprio ar, é o que se passa no meio das minhas pernas. Chama-se a isso vida. O forte sotaque alemão ao meu lado sorri apenas levemente. Mais champagne. Mais Ferraris. Não gosto de Ferraris, fazem-me pensar em jogadores de futebol e sheikhs árabes. O 612 Scaglietti vermelho sorri para mim e não lhe consigo resistir. O maior sonho da minha vida é destruir um Ferrari novinho em folha. Porque não agora? O príncipe ri, as meninas gritam e batem palmas enluvadas. Estou na República de Saló. Quando entro no carro, ainda sinto a dor mitigada do outro acidente, mas isso só me faz sorrir. Juliette Greco e Miles Davis na cama em Paris? Miles and Miles and Miles of Miles Davis... Ah, Malcolm McLaren. Ao toque da minha mão, desperta o V12 da máquina italiana, 540 cavalos selvagens às minhas ordens, para a minha destruição, ou será para a minha satisfação? Estou vestido de negro. Toda a gente está vestida de negro. O Ferrari dispara, deixando um rasto de cascalho a pairar no ar cinzento da manhã. O demónio chegou ao Lago Como e conduz comigo pelas estradas estreitas. Acelero. Acelero mais e mais ainda. O rugido é infernal e sei que posso voar. Não gosto de Ferraris. Travo. À minha volta tudo se transforma num borrão indistinto. Estou vestido de negro. O príncipe Von Orbach ri, ecoando pelo parque o seu frémito teutónico ancestral. O miúdo tem pinta. As rodas de trás do Ferrari saem da estrada e levam o resto do carro consigo, num alegre bailado de chapa e carne. A minha. Sei que posso voar. Estou a voar. Ouço, lá bem longe, vidros a desfazerem-se, metal a dobrar e o Malcolm McLaren a cantar banalidades sobre Paris. Mais tarde, enquanto como uma tosta de caviar com ostras, sinto um pequena dor algures dentro do meu peito. Já não estou vestido de negro. À minha frente, a Catherine Deneuve fala com o seu namorado brasileiro de 24 anos. Paris, Paris...?
sábado, 29 de março de 2008
terça-feira, 18 de março de 2008
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